quarta-feira, 1 de setembro de 2010

FALSO AMIGO

Para mim, calhando até o trocadilho, tempo nada mais é que nada. Já o conheci, na época em que eu o sentia escorregar pelos meus dedos, nos dias em que me conformava, com o corpinho todo suado das brincadeiras na rua, de que o tudo havia valido a pena. Nada era posto de lado, do café da manhã ao jantar; das brincadeiras aos compromissos. Eu e ele tínhamos uma harmonia, a harmonia de andarmos na mesma marcha.




Hoje, graças a ele, perdi minha sesta, minhas brincadeiras, e muitas vezes, chego a não encontrar uma brecha sequer para comer. E sem comer, não há santo que faça cara boa, sobretudo àqueles que nos façam passar fome.



Não digo em todas as letras - só em algumas - que eu o odeio. Aliás não me atrevo, porque já disseram por aí, e não mentiram, que 'tempo é dinheiro'. Isto me conforta um pouco.



Mas nem só de dinheiro é feita a vida. O tempo, muito menos. Sua formação, sei eu, vai além dos minutos e dos segundos demasiadamente voláteis, e fica aquém de minha compreensão. Queria mesmo saber se ele se lembrava de quando éramos afinados um com o outro, só isso. Da época em que, no pega pega, era ele quem tinha de correr atrás de mim.



Confesso, estou sem fôlego desta brincadeira que se inverteu num sei como, quando e por quê. E arrisco em dizer que o tempo parece um fugitivo nato, ao me driblar, me ludibriar, me confundir e... Me enganar! Desgraçado, esta ele não tinha me contado.


No fim das contas, ele em si vejo pouco. Suas atitudes tornaram-se covardes desde que ele me tirou a infância. Vive insistindo em evitar uma conversa de homem para homem para, ao invés disso, mostrar-me que ainda existe em rastros provocativos. São meus cabelos mais brancos, as rugas nos rostos de meus entes, as flores mortas de minha mesa (...).


Em todo o caso, tendo de saborear este amargo de não poder falar poucas e boas àquele safado, vou vivendo em seu encalço. Enquanto não reencontrá-lo, por pirraça, o tempo me roubará muitas sestas, me dará um belo chumaço de cabelos brancos e, quiçá, na beira de minha morte, um abraço ridiculamente falso. Retribuirei, apertando-lhe com raiva. Ah, como será bom senti-lo de novo escorrer pelos meus dedos, escapando manhosamente de mim.


O tempo já foi, o tempo não para, o tempo não volta. Tempo nem dinheiro mais é, porque não há mais dinheiro. Tempo é só saudade.


3 comentários:

Denise Paiero disse...

Que belo, belíssimo texto, Ricardo!
Parabéns!
Denise Paiero

Nina Vieira disse...

Também eu, meu amigo, ando sem tempo. Tudo porque insisto, mesmo que desnecessariamente, ser workaholic total.
No meu caso, acho que vai virar doença. Psicológica. Das brabas.
Abraço.

Mai disse...

É o texto seu que mais vi sentimento!palavras duras, mas bonitas!!rs