terça-feira, 3 de agosto de 2010

Para que serve política

Certa vez, eu e um amigo recebemos o cordial convite para almoçar na casa de um influente político das bandas interioranas de Minas Gerais. Dr. Freitas, respeitosamente, lançou-nos a tentadora proposta em retribuição a uma cobertura que fizemos, que deu até matéria de capa, sobre as feitorias de sua gestão. Irrecusável do ponto de vista de dois peões de jornal como nós, que de algum modo disfarçamos a vida modesta por trás de alguns compromissos de glamour. "Alô, senhor prefeito? Conte conosco." E a voz grave, do outro lado da linha: "Será um prazer recebê-los".






Diziam os mineiros que Dr. Freitas vinha de família pobre. Nascera lá mesmo, onde hoje governa já por dois mandatos consecutivos. Tinha pai pedreiro, cuja saúde não era das melhores: era hipertenso, o que não o livrava da necessidade de pagar o pão que dividia com a mulher e mais 4 filhos, dentre eles o Dr. Freitas, caçula.


A pobreza logo lhes jogou na luta pelo pão, desde o primogênito ao caçula, só Freitinhas, na época. Foi padeiro, sapateiro, açougueiro e, por fim, pedreiro como o pai. Virou doutor graças a uma herança deixada por um tio-avô sem nenhum herdeiro de sangue sequer. Comprou uma casa, formou-se em advocacia e se fez na vida. Hoje, é casado, prefeito e dono de uma vistosa fazenda em Minas.


A conhecemos no dia do almoço, que prometida um cardápio com todas as delícias da culinária mineira a que se tinha direito. A casa era belíssima, de interior todo trabalhado em madeira, tudo bem rústico. Nos causou estranheza sua tara por tapetes: muitos deles espalhados pelo chão. Depois de muito bem recepcionados pelo excelentíssimo Dr. Freitas - em roupas muito elegantes para a ocasião - bastávamos aguardar a chegada de um outro amigo do prefeito também convidado.


Soubemos [é cacoete de jornalista] de que se tratava de um antigo secretário, há algum tempo afastado da política local por acusações "injustas" (aspa do próprio Dr.) de corrupção. Gonzaga, o tal amigo, chegara. Almoçaríamos enfim.


No caminho, tapetes, muitos deles.


Depois da refeição, um café e a despedida. Com tapinhas nas costas e nosso "muito obrigado", já estávamos de saída quando flagramos Gonzaga chutando alguma coisa para baixo de um belíssimo tapete persa. Esses tapetes...


Nós, jornalistas, dia desses emplacamos mais uma matéria de capa sobre Dr. Freitas. Falamos de barriga cheia, por isso abordamos a falsa(diremos já) idoneidade política do prefeito; idôneo só se tivesse sido para Gonzaga, que metera a mão numa grana preta e tomado de volta seu cargo de onde fora exonerado.


Eu e meu amigo gostamos de política. Ela nada mais é que um convite para um almoço, no qual a beleza está nos tapetes. São lindos porque enfeitam, mas suspeitam já que escondem. É com isso que nós jornalistas enchemos a pança.





2 comentários:

Cansei de ser sexy disse...

Apesar de você não merecer, eu vim aqui e li o post. Muito bom.

Nina Vieira disse...

Todos nós temos nossas culpas embaixo do tapete. Mas o ser público também é posto como uma divindade heróica. Ledo engano. E assim se cria a corrupção: porque todo ser humano erra - e peca.