quarta-feira, 24 de março de 2010

OS VADIOS



Minha vida é de vadiagem, boêmia e nem um pouco exemplar a quem preze pela correteza nos horários e nos compromissos. Não os menosprezo, mas não lhes dou a devida prioridade, visto que me fartei da rotina pacata e assaz apolínea dos homens ditos bons. Bondade cuja veracidade questiono quando ela se mensura, superficialmente, com o nicho daquele que lhe conferi o atributo.

O botequim, avizinhado à bodega onde moro, de cores defuntas e história viva, não parecia morto. Conquanto encharcado de luzes fracas, sua penumbra era convidativa, sobretudo porque deixava à mostra suas lindas mesas de pernas curvas que suportavam uma porção de copos cheios.

A noite me reservava a mesma pachorra dos cigarros e da espera no parapeito da janela. Fora eu namorando a calçada, com meus olhos acostumados a todos os fenômenos da Francisco Pontes nas exatas 20h, um sujeito rompeu com esta rotina quando resolveu meter seus pés errantes na minha calçada. Vinha ao longe, vagaroso, de mãos nos bolsos, embocando um cigarro cuja existência reparei, pois vi a chama consumir sua ponta em meio ao breu.

Assim que se aproximou da tasca, número 105, meteu a chave e entrou. Pegou-me debruçado na janela da sala, enquanto vivia as poucas horas de amor que meus dias reservavam. Eram parcas, de fato, entretanto a Francisco Pontes, justamente, às 20h amava-me, porque retribuía todas as minhas querências. Não entremos nestes méritos, já que tenho um sujeito que, logo depois de entrar, fitou-me profundamente. Era enfiado numa camisa com listras roxas e calças amarrotadas e os olhos (ah, os olhos), avermelhados de não sei o quê.

Trocados meia dúzia de cumprimentos desgraçados, pus-me a ouvir uma boa música ao mesmo tempo que o sujeito franzino e de olhos rubros perambulou pela cozinha, apanhou alguma cousa para comer e se assentou de fronte a mim. Vinícius é encantador, pois não é?

Vinícius de Moraes apresentou-me o rapaz que caminhava rumo à espelunca, 105, da Francisco Pontes às 20h. A conversa entre mim e Miguel, à luz de Vinícius, estendeu-se ao botequim. Sentamo-nos nas belas mesas, pedimos a rodada de cerveja e regamos os comentários com goladas generosas. E que requinte dos comentários de Miguel. Terminei minha primeira noite atípica nas bandas da Francisco satisfeito com alguma prosa atraente.

Exaurido e já um pouco ébrio, anunciei minha saída a Miguel. Joguei-lhe o trocado para pagar a conta e me retirei. Miguel, à margem da embriaguez, mas ainda não convencido, despediu-se declamando um poema. Para ele, a noite continuava. Para mim, precisei prezar pela correteza, já que tinha compromissos pela manhã. Por trás dos muitos goles de cerveja, Miguel escondia-se. Apesar de seus problemas, esbanjava cultura, a vadiagem e a bondade. Pois aprendi que Miguel é aquele a cuja identidade se resume a caminhada nas sombrias calçadas da Francisco Pontes. Mas quanta inteligência...

6 comentários:

Felipe Fernandes disse...

Simplesmente: Puta que Pariu, Do Caralho! Parabéns mesmo mano!

Maíne disse...

Lindo!

Nina Vieira disse...

Meu sonho é ter uma vida boêmia. E sim, o teu blog é referência lá no meu, com certeza!

Paola Maluceli disse...

Narrativa despretensiosamente envolvente! Amei!
Beijos

DOÇURA FEROZ disse...

envolvente realmente, como a vida boêmia, super atrativo :)

eduardo disse...

genial meu caro chapolim!!!
flashs de um fanfarrão na noite.
saiba que o textosterona também tem muito apreço por este blog
já estas add!
grande abraço