Era um detetive o Ovop. Ele era de fora, é verdade, mas solucionava os casos daqui da casa como se fosse dela. Mostrava conhecimento e muita propriedade – daqueles que já tem estrada no ramo – quando lidava com os pepinos resultantes da politica brasileira. Eram problemas cujos assuntos variavam, iam desde a questão dos culpados pela sujeira nos corredores do plenário até a corrupção (que não deixa de ser também um tipo de sujeira circulante por ali), dominadora de toda a esfera administrativa do país.Ovop é nascido nos cantos frios do planeta, onde nomes geralmente terminam em consoante. Não se sabe bem os motivos pelos quais veio tentar a vida nova nas terras gentis. Sabem só que, apesar do ofício e de sua dependência de crimes e mistérios, o detetive pouco gracejou com os males encontrados em solos tão propícios à prosperidade.
Nos últimos dias, dois acontecimentos chamaram a atenção. Primeiro, foi a demora para a apresentação da CPI da Petrobrás – a maior estatal brasileira. Quando a notícia chegou aos ouvidos do conceituado detetive, passou matutar mostrando-se intrigado enquanto andava de um lado a outro no escritório. “Deve haver alguma manobra ilícita no meio dessa história toda, não é possível!”, pensava Ovop. Múrmurios soavam baixinho: “Bobagem, são coisas da cabeça de um detetive estrangeiro.”
O segundo acontecimento atropelou o primeiro, sem se preocupar se o anterior tivesse sido solucionado. Por isso, pegou Ovop ainda concentrado em interrogações acerca a enigmática ocorrência na Petrobrás. O fato era em Brasília. Envolvia Sarney – o presidente do Senado – e acusações de ter patrocinado por volta de 500 cargos secretos (logo, sem a ciência dos cidadãos brasileiros) distribuídos aos setores políticos.
Ovop pôs-se a raciocinar incansavelmente. O cachimbo no canto da boca soltava sua fumaça mal-cheirosa em resposta a cada tragada apreensiva de Ovop; fazia-as em intervalos ínfimos de tempo, marca de tamanha preocupação com dois chumbos grossos que recebera.
Mais um dia raiou numa semana de insônia. Os olhos do detetive estavam trincados por veias vermelhas e ardiam como se areia lhes fosse jogada. Ovop, fatigado em apurar, desta vez não encontrava indícios de resposta alguma. Ficou triste e desistiu. Os nervos lhe cobriam a pele, o mal-humor o possuia e tinha várias horas de sono atrasado. Tentou esquecer e dormiu.
Renovado, Ovop iria voltar à rotina. Prestes a abrir a porta do escritório, o jornal já o aguardava para ser recolhido. Manchete: “Senador Sarney é culpado por cargos secretos e tem participação em fraudes da Petrobrás”. O detetive, embasbacado, sentou-se e leu. Quem diria… O segundo acontecimento tinha atropelado o primeiro e, de certa forma, este acidente era até pertinente. Ovop estava triste de novo. Como bom detetive que era, odiava aquela mesma sensação estranha tida por toda a nação brasileira. Tinham sido os últimos a descobrirem a verdade.
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