
Bem disse Caetano Veloso que alguma coisa acontece no coração de quem cruza a Ipiranga e a avenida São João. Embora elas não estejam nas mesmas condições da época da música Sampa, a sensação diferente ainda permanece nas calçadas ornadas pelos postes de luz antigos. Seja qual for o modo que se passe por lá, o contágio pelo sentimento nostálgico da São João é certeiro. Mas nada como andar pelos ladrilhos esburacados cheios de histórias para contar. Delas, a mais retumbante em meio ao alvoroço de vozes, passos e buzinas é a ecoada dos corredos sombrios do Marabá.
Há quem dissesse que ele estava morto por causa do estado deplorável de sua fachada. Estavam encardidos os cantos e os detalhes de uma arte sumida; as paredes, rabiscadas com tintas multicoloridas. Nada como antes. Lá de dentro, alguns cartazes pendurados de mulheres expondo o corpo como se quisessem algo em troca. E pareciam conseguir, porque, do lado de cá, rapazes com olhos famintos devoravam a nudez insinuada mostrando-se a disposição em pagar “algum” para saciarem suas vontades. Hoje, filmes pornográficos são os mantenedores da vida do Marabá. Graças aos gemidos de êxtase das atrizes que explodem pelas salas pouco iluminadas, o antigo e célebre cinema ainda respira.
É triste ver tudo isso bem no cruzamento da Ipiranga com a São João. Tenho certeza de que não eram essas sensações às quais se referia o compositor baiano, apesar de vários trechos do centro de São Paulo serem símbolos vivos da boemia paulistana. Nada contra a boemia, afinal, sem ela, talvez nem o músico passasse por lá e nem a música Sampa teria sido produzida. A lástima era ver o majestoso Marabá, dos áureos tempos, ser reduzido às merrecas de entradas para o “Fernanda, a vizinha solitária”, isso sim.
Agora, depois de tanto tempo jogado às traças, o Marabá ganhou vida nova. As tintas multicoloridas apagadas, as sujeiras dos detalhes removidas e até um tapete vermelho estendido no saguão. Dá para sentir que há algo mudado na calçada acidentada. Se já era evidente a aura transmitida pelo famigerado cruzamento paulistano, depois de restaurado o Marabá, os ladrilhos deixam de estar esburacados, os postes antigos de luz ilumam diferente e todos juntos contam mais histórias. Histórias de que alguma coisa acontece no coração de quem cruza a Ipiranga e a avenida São João.
Um comentário:
POETA ZÉ DE LOLA disse...
POETA ZÉ DE LOLA:
POESIA:
CONVERSANDO COM OS PÁSSAROS.
I
Mim diga o motivo
Conseqüência ou razão
Algum crime eu pratiquei?
Ou serei algum ladrão?
Se não sou um delinquente
Mim diga aí seu demente
Por que estou na prisão?
II
Existem organizações
Pra cuidar dos animais,
Mas permite uma licença
Veja só o que se faz
Você paga um tostão
O bicho vai pra prisão
Não se solta nunca mais.
III
Não há motivo qualquer
Que possa justificar
Tirar nossa liberdade
Que a natureza nos dá
É uma grande covardia
Praticada dia a dia
Quando isso vai parar?
IV
Ninguém por preço nenhum
Quer que viver engaiolado
Até mesmo um criminoso
Contrata um advogado
Pra fazer sua defesa
E às vezes com sutileza
Ele sol um culpado.
V
“Coloque-se” em nosso lugar
Use sua consciência
Fique preso numa gaiola
Faça uma experiência
Pra burrice tem limite
Por que você não admite
Essa sua incoerência?
VI
O pássaro vive feliz
Em seu habitat natural
Os homens ignorantes
Que gostam de fazer mal
Tira sua liberdade
E esta imbecilidade
Eles acham que é normal.
VII
Se eu fosse funcionário
Da defesa ambiental
Ficaria muito triste
Por ver como é natural
O crime que é praticado
Como está sendo depredado
O nosso reino animal.
VIII
Oh! Como seria bom
Que o homem se ligasse
Respeitasse a diferença
Que existe em outra classe
Depredar a natureza
É uma indelicadeza
Seria bom que mudasse
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