
Às 4 horas da tarde já era hora de se acenderem as luzes, tamanha a escuridão que mergulhou a cidade. Do céu, nascia o motivo de toda a apreensão de pessoas traumatizadas com o caos existente mesmo em tempos outros. A chuva por vir agravava uma insegurança engasgada que só terminaria quando os pés tocassem o solar dos lares. E, de fato, as gotas gordas não tardariam a cair, pois o chacoalhar das árvores avisavam numa mesma melodia, iluminadas pela pouca luz oriunda dos holofotes do céu cinzento, a chegada do toró.
A água parecia cair aos baldes. Pingos eram arremessados pelo vento, batiam em janelas e também faziam música. Nesse bombardeio, poucos eram os que se aventuravam a enfrentá-lo munidos somente com um insuficiente guarda-chuva – já que não guardaria nem um terço dela. No entanto, de pouco em pouco, o número de loucos aumentou ao grau de disputarem um espaço no chão onde se formavam novos canais.
O pé d’água – que se tornou pernas, braços e cabeças N’ÁGUA - se prolongou. Quem entendesse de limites entre o rio de São Paulo e sua extensa via expressa principal não mais distinguia asfalto de água. Tudo era a mesma coisa marrom homogênea faminta por espaços. Tão democrática ao ponto de misturar num único corpo barrento os ricos e os pobres; os bonitos e os feios; os louros e os negros…Tudo isto sem a mínima distinção.
O trânsito parou (algo costumeiro), todavia o ambiente ganhou um movimento atípico abrupto. Levadas pela força da corredeira, as bugigangas são móveis, e os auto-não móveis. De papéis invertidos, quem comandam os acidentes são os postes andantes contra os carros estáticos.
Só depois de algumas horas de aflição, o rio volta à sua antiga dimensão. Os destroços sossegam. Os transiuntes conseguem se locomover e a ordem natural das coisas retorna à normalidade da alucinada São Paulo. Quando o sol brilha no dia seguinte, a luz incide no barro que agora é areia. Ela traz consigo somente uma lembrança azeda do que foi e a lamentação do que será numa próxima vez: a cidade a 7 palmos debaixo de água.
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