Paletas

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

NATAL INVISÍVEL

Crônica publicada no dia 28 de Dezembro de 2008 no jornal Já!.

Fim de ano e muita festa , dona Conceição? Quem diria... A senhora, franzina, porém toda pomposa, com os tantos problemas de saúde, mascarados pela candura de sua pele sem muitas rugas, conseguiria superar mais um ano árduo, de catástrofes, pouco trabalho e muito choro. Mas está aí, de pé, firme e forte, pronta para o próximo round – o de 2009. Mesmo assim, não é hora de lamentar por perdas e sim se alegrar por terem sido passageiras. Mãe dos 4 filhos – Gilberto, Francisco, Luciano e Joana – a senhora junta o pé de meia do ano (inclusive o 13° terceiro que tardou para sair), para fazer as compras do Natal. Para que todos passem o dia festivo em seu humilde casebre na Penha, a faxineira abre mão de seus “luxos” (as aspas fazem jus ao tipo de luxo por mim referido).


Dói no bolso o valor das guloseimas e dos presentes, entretanto, aos 63 anos, não se incomoda em desembolsar o quase nada que tem só para ver sorrisos nos rostos dos filhos, sempre assolados pelas dificuldades da vida.


Viúva, dona Conceição é pai e mãe. Nascida nos confins do Nordeste, Conceição, veio a São Paulo já grávida de Gilberto, logo após ter perdido o marido – vítima de malária. Sofrer é sua sina desde menina, por isso tenta poupar os filhos das agruras da vida, muito embora, infelizmente, não consiga apartá-los totalmente dos males.


Dia 23 de Dezembro, uma das escassas folgas da faxineira, Conceição tirou para os preparativos de Natal. Primeiro, o supermercado. Driblando os espantos devido aos preços (maldita crise, hein?), esforçou-se e comprou os itens que listou num papelzinho amarrotado. Depois, passou pelas lojas de roupas, tênis e afins apenas para olhar, pois, comprar, nem pensar.


De volta para casa, com poucos embrulhos, dona Conceição tomou as três conduções necessárias para chegar á humilde casa. Prontas as comidas para a festa, a nordestina, auxiliada pela filha Joana, arrumou tudo sobre a mesa, sem esquecer de colocar num canto uma pequena árvore.

No brilho dos olhos da mãe a gente vê um choro de alegria contido, misturado com emoções outras, por tornar possível um Natal igual ao que contam existir. Na mesa estão depositados os frutos do esforço feito nas faxinas em Santo André, Morumbi, Pinheiros, Santana, Jabaquara. Enfim, da sua rotina.. Filhos, netos, noras à mesa. Um conversê diferente dos costumeiros, repletos de gargalhadas e cantorias. Dona Conceição contempla os seus e reza por um mundo melhor para todos no ano próximo. Sem crise econômica, com vagas nas empresas, salários mais justos; uma política mais humana, menos corrupção, igualdade a todos.

Alguém aparece com um celular daqueles que têm máquina fotográfica.

Ora, uma foto para recordação não pode faltar.

Afinal, o Natal de dona Conceição não passou em branco. É um acontecimento como tantos outros que houveram em 2008!

A diferença é a de que a tal foto perpetuará no papel aquilo que ficaria invisível na memória.

Para dona Conceição, isso é uma grande glória.

3 comentários:

Juliana Bragança disse...

oi! essa dona conceição existe ou eh fruto da sua imaginaçao?!?! Sei q existem muitas como ela, mas ela é apenas uma representação ou uma pessoa de verdade??
bjos e saudades

AGRY disse...

Correspondi ao seu convite e passei pelo seu blogue. Interessante e revelador de preocupações sociais o que, aliás, é sempre gratificante descobrirmos na web. Parabéns e prossiga a caminhada
Abraço
Agry

Cacofonias da Vida disse...

Essa crônica realmente tocou meu coração. Sinceramente.